25 agosto 2018
Por Karolline Vicente

[Usurper] Capítulo VI

— E você se lembrou do nada? — O policial Russell perguntou intrigado.

— Sim, foi de repente. — Menti.

— Certo, de qualquer modo, irei iniciar as novas pesquisas e caso haja novas recordações, nos avise sem hesitação. — O policial Johnson interrompeu as perguntas do colega e finalizou o assunto.

Russell ainda me olhava como se esperasse que eu falasse algo mais, mas eu fingi não me importar com seus pensamentos confusos. Não contei sobre a visita amigável que havia recebido na noite anterior, somente contei que sonhei com alguns fatos de minha vida e me recordei do meu nome. Eles tinham que me dar respostas para que eu pudesse me armar com elas. Eu precisava de informações para chegar até o meu "criador". Não que eu precisasse vê-lo, mas sim detê-lo. Eu seria sua única e última cobaia.

Cooperei na medida do possível e eles me deixaram em paz no resto do dia, deveriam estar bem atarefados. Isso era bom e ruim para mim, bom por que eu já não tinha paciência para aquelas caras me acusando de coisas que eu nem fazia ideia, e ruim por que eu ficava isolada. E ficar sozinha em minha situação era muito ruim, mesmo! Eu tinha medo das lembranças que poderiam surgir, tinha medo de mais alguém aparecer e tentar algo contra mim. E indefesa como eu estava, poderiam fazer o que quiserem comigo.

Deitada na cama fiquei observando o teto por longos minutos. Eu ouvia o barulho de alguns equipamentos, vozes no corredor e passos por todo o lugar. Eu repetia a todo instante "não pense", por que se eu desse uma brecha para minha mente, eu tinha certeza que ela faria algo negativo comigo. Meus machucados começaram a doer e eu tentei não toca-los. Tentei insistentemente não passar a mão sobre onde doía e fiz um esforço para diminuir a intensidade das dores mentalmente, como eles me ensinaram a fazer. Não funcionava, era sempre preciso que alguém desse às ordens. Eu sempre seria submissa aos desejos alheios, sejam eles favoráveis ou não.

Apertei o botão para que um enfermeiro viesse me ver, eu precisava de algum remédio para aliviar a dor, mas o meu ajudante estava demorando muito. Minha perna começou a ficar dormente e eu não sabia se aquilo era normal ou não. Minha respiração começou a ficar ofegante e eu senti meu peito se apertar, eu precisava fazer parar.

— Está tudo bem, é uma dor como qualquer outra. Você vai ficar bem... Vai dar tudo certo! — Falei comigo mesma.

— Como você sabe disso?

— Eu sei que vou ficar bem, de alguma forma eu irei!

— Ainda bem que não destruímos todo o seu senso de positividade. Mas você sabe que só conseguiu fugir porque teve ajuda, não é? Ele deixou você sair, e por isso quando ele quiser você, voltará para os braços dele.

— Cale a boca, eu não vou voltar! — Falei apreensiva.

Meu corpo estava dolorido e eu sentia muito frio. Como na noite em que fugi, eu sentia o frio gelando todas as emoções que eu sentia, congelando minha essência e colaborando para que eu esquecesse minha identidade. Minha cabeça começou a doer freneticamente e eu segurei o choro na garganta.

— Respira, Em. Respira!

— Ele está com saudades, em breve fará uma visita para você!

— Para de falar, não quero ouvir sua voz!

— Quando você se lembrar da verdade, será que ela vai doer mais do que essas cicatrizes ai?

— Eu não quero saber! PARA DE FALAR! — Comecei a elevar meu tom de voz.

Minha cabeça estava a ponto de explodir, eu me contorcia para tentar não ouvir aquela voz irritante e acabei abrindo um dos curativos que estavam em meu tornozelo, o resultado disso fora meu sangue pintando aquele lençol branco.

— Ninguém consegue segurar ela? — Russell disse nervoso.

— Estamos tentando porra! Mas a agulha não quer entrar, não sei o que está acontecendo...

— Precisa ser na veia mesmo?

— Sim, para o efeito ser mais rápido!

— PARA DE FALAR, EU NÃO QUERO OUVIR SUA VOZ!

— Soltem-a! — Russell ordenou. Mas nem seu companheiro e nem o enfermeiro deram-lhe ouvidos. — EU FALEI PARA SOLTAREM ELA! — Ele gritou. De imediato os homens saíram de perto da cama e avistava-se apenas uma mulher suando frio e contorcendo-se rapidamente. Ele chegou mais perto e tentou entrar na brincadeira. — Emily?

— Não, não...

— Emily? Vai ficar tudo bem...

— Eu vou morrer, não vou? Ela não para de falar, manda ela calar a boca. — Falei entre lágrimas.

— Você não vai morrer, por que ela está falando isso? — Ele perguntou.

— Por que eu não estou sendo uma boa garota.

— E o que mais ela disse?

— Ela disse que você está com medo. — Meu choro cessou. A risada dela na minha mente era perturbadora e eu não sabia como fazê-la parar. Ela estava inquieta e não me obedecia.

— Ele mente pra você. Ele sabe de coisas e não quer te contar. — Ela dizia com um sorriso maligno no rosto.

— Por que você está com medo, sargento Russell? — Perguntei nervosa.

— Não estou! Mande-a de volta ao seu devido lugar. — Ele disse desconfortável.

— Acho que as visitas dela estão sendo bem mais agradáveis do que eu tinha em mente. — Falei séria.

A minha dor de cabeça diminuiu ao mesmo tempo que a voz dela sumiu. Eu olhei para ele e vi algo estranho em seus olhos, pareciam temer o rumo daquela conversa. Mas incrivelmente, ele sabia o que estava fazendo, já que os outros dois homens nos olhavam confusos. Depois de alguns minutos o enfermeiro me injetou algum remédio e eu senti meu corpo pesar. Eles estavam com medo de me deixar acordava por mais de 5 horas, já que eu sempre tinha alucinações. Ótimas para mim, problemáticas para eles. Continuei encarando o policial e quando ele se levantou percebi que ele estava segurando meu braço. "O que ele tinha feito?" perguntei para mim mesma. 1, 2, 3. O que ele tinha feito.

***

— O que você fez? — perguntei a ele.

— Acho que funcionou. — Ele disse radiante. — O seu presente será muito útil para os próximos testes.

— Mas tem algo de errado comigo, o que funcionou? — perguntei preocupada.

Eu sentia que algo estava errado, mas não sabia o que era. Sentia meu corpo perturbado e ele lutava contra memórias para lembrar de algo importante. Minha respiração estava incontrolável e eu andava de um lugar para o outro à procura de algo que me fizesse ficar equilibrada. Eu estava em uma das salas de teste e estava a sós com ele. Ele parecia adorar me ver naquele estado.

— O que diabos você fez? Por que estou assim?

— Algo foi arrancado de sua memória, querida.

— O que? Como assim?

— Quem eu sou?

— Você? Você é... Cientista, doutor... Não, quem... — Eu precisava controlar minha respiração para tentar juntas as peças do quebra cabeça. — Você é... você...

— Brilhante! — ele começou a aplaudir minha amnésia. — Desse modo, ela nascerá mais rápido do que eu pretendia. — Ele ria e fazia anotações.

— Filho da mãe, você não passa de um merda!!! Não importa o que você fez comigo, eu vou me lembrar. — Fui interrompida quando ele pegou meu braço e o apertou fortemente.

— Você vai morrer antes de se lembrar!

Ele me jogou no chão e eu alisei meu braço para tentar aliviar a dor. Seus dedos estavam bem marcados em meu antebraço, e seus dedos nítidos em todas minhas cicatrizes recém formadas. Antes havia o número "3" queimado em minha pele, agora havia o número "2" pintado com sangue.

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