04 agosto 2018
Por Karolline Vicente

[Usurper] Capítulo III

— Eles ainda não falaram nada! Acredito que estejam protegendo ela...

— Não, eles nem a conhecem. Aliás, encontram algum documento que comprove sua identidade?

— Nada! Ela é um mistério. Talvez esteja fugindo, talvez tenha feito coisas erradas...

— Ela parece estar bem traumatizada. Você viu os hematomas no corpo dela?

— Eu vi muita coisa no corpo dela...

— Cara, eu estou falando sério! — O oficial Russell falou revirando os olhos. – Ela sofreu muito aparentemente, eu duvido um pouco dessa sua teoria de que ela esteja sofrendo sintomas de abstinência. Talvez seja um surto pós-traumático ou coisa do gênero.

— Quem sabe? Ela não fala do que pode ter ocorrido com ela, não se lembra nem qual o seu nome.

— Peça para fazerem um busca nos desaparecidos do ano passado...

— Já fizemos e não há registro de nenhuma garota com a fisionomia dela.

— Busque pelos três anos anteriores e faça uma busca visual no sistema, em câmeras de shoppings, aeroportos, ruas, tudo! Precisamos saber quem ela é!

— Já vi que esse trabalho vai demorar para ser concluído. — disse o policial Johnson. — Vou pegar um café, você aceita?

— Claro, essa noite vai ser longa!

Observava os sargentos através da janela de vidro que tinha na porta do quarto. Eu não conseguia me sentir confortável e meu primeiro instinto era de sair correndo dali, mas eu não tinha forças e muito menos noção de para onde eu poderia me esconder. E me esconder de quem exatamente? Não sabia quais eram meus inimigos. Eu ainda estava algemada e precisei me manter estável psicologicamente para não gritar para eles tirarem aquilo de mim. Eu ainda sentia dores físicas e minha cabeça doía numa intensidade anormal. Flashbacks sempre vinham à tona me deixando confusa e com medo. Eu não sabia se eram meros sonhos ou se haviam acontecido realmente. Até qual ponto minha mente podia me enganar? Eu era refém de mim mesma.

Observei os dois policiais tomarem um liquido quente, acredito que seria café devido à cor e o ar quente que saia do copo de plástico. A última vez que tomei café foi com ele, estávamos naquele quarto "especial" sentados como sempre na cama Box. Era uma terça-feira, dia de visita, o tempo estava bem gelado e enquanto eu o aguardava debaixo dos cobertores, pensava em como seria se eu não fosse sua prisioneira. Será que seríamos amigos? Namorados? Amantes? Como ele tinha me conhecido e por que me escolheu para toda essa situação? Eu nunca saberia.

Ele abriu a porta e me trouxe alguns doces e uma garrafa de café. Eu sorri internamente, pois gostava de receber sua atenção, de vez em quando. Ele estava de moletom e ao me olhar, levantou os itens e sorriu para mim. De terças e sábados ele vinha me visitar, sempre com presentes, pedidos e humores inusitados. Eu até poderia aceitar a ideia de que ele sofria de transtorno de personalidade, mas sabia que não era apenas isso. De inicio eu odiava ser arrastada para aquele quarto, odiava a espera e muito mais passar a noite ao seu lado. Mas com o tempo e com as conversas, eu percebi que poderia tomar proveito desses momentos e fui aos poucos, inconscientemente, me entregando à sentimentos que eu não admitia.

Ele era tão ruim comigo, mas eu tinha esperança de conhecer um lado seu diferente, um lado que não me matasse os poucos e que trouxesse vida ao meu redor. Havia noites em que ele se transformava e me batia, na maioria dos casos ele chegava comentando de seu dia horrível com os negócios, pedia algumas bebidas alcoólicas e depois começava a me forçar coisas... E então eu acabava no chão, com sangue em alguma parte do meu corpo, seja entre as pernas ou na cabeça.

Abri os olhos voltando à realidade. Um dos policiais me observava com o copo nas mãos enquanto que eu encarava o líquido escuro. Será que ele estava ali há muito tempo? Será que eu tinha dito algo enquanto dormia?

— Como você está? — Ele perguntou. — Não fiz esforços para respondê-lo e ele insistiu. — Você parecia estar tendo pesadelos e eu vim ver se estava tudo bem.

— Obrigada pela preocupação.

— Acredito que não é o momento mais favorável, mas preciso saber se você se lembrou de algo e não nos contou. — Ele esperou alguns minutos e devido o meu silêncio continuou. — Mesmo que tenha medo ou esteja sendo ameaçada, eu preciso que diga do que se lembra. Só assim poderemos tentar ajuda-la.

— Como vocês poderiam me ajudar?

— Com o seu nome, conseguiríamos localizar sua família e informações importantes sobre você. Cada detalhe é muio importante...

— Ele me chamava de Emily... — Sorri sem querer.

— Ele quem? — Olhei para ele e percebi que tinha me arrependido de ter dito aquilo. Por que eu estava tão insegura? – Você está protegendo alguém?

— Á mim mesma.

— Eu peço que confie mais em nós, mesmo que tenhamos todos os motivos para desconfiar de você. — Ele disse após tomar um gole de café.

— Mesmo que eu não me recorde, eu juro que não queria matar ninguém com a bomba, eu só não sei...

— Acho que você queria sim, Emily! – Ele disse com segurança. – Tínhamos pensado que você estava desmaiada e aproveitamos para retirar aquele saco que te puseram, e depois de desconectar a bomba de seu corpo, você abriu os olhos e bom, não sei o que viu, mas não ficou satisfeita. – Ele caminhou até perto da cama e prosseguiu. – Eu sei até qual nível podemos te irritar. Eu sei até aonde você é capaz de se proteger. Mas eu não até que ponto você é a vítima nessa história.

— O que está insinuando? —Perguntei cerrando os dentes.

— Você é ágil, rápida e forte, derrubou com facilidade o sargento Russell. — Ele fez uma pausa e bebeu outro gole de café. — Eu até me surpreendi! Se não fosse os seus gritos e o ataque... Ah, e a jogada da bomba também foi bem certeira, ainda bem que estava desabilitada... — Ele fez outra pausa olhando para o nada. – Se não fosse esses detalhes, eu sentiria pena de você. Mas sabemos que você, senhorita, não é tão indefesa assim.

Me enchi de ódio e meus olhos se encheram de lágrimas. Esse policialzinho nem sabia do que eu já tinha passado para falar algo sobre mim, ele se achava o foda por ter salvo a minha vida, mas eu mesma que precisei me salvar durante todos os meses que nenhum oficial me encontrou em cativeiro. Não era questão de ser vitima ou não, eles não se tocavam de eu estava completamente perdida? Nem de meu nome eu tinha certeza e eles não imaginavam como isso era assustador. Mordi os lábios para me controlar e me concentrei em suas palavras. Agora eu podia acrescentar um rosto à minha lista pessoal.

No outro dia de manhã, vieram alguns oficiais me visitarem, eram muitas as perguntas mas eu não tinha a resposta para nenhuma delas. Eu até ouvi sussurros em minha mente me chamando de burra e inútil, mas dizer isso em voz alta era irrelevante, pois eles já sabiam disso. Mais alguns exames foram feitos em mim e acredito ter ouvido os médicos falarem que daqui há dois dias eu poderia ter alta. Ótima noticia, senão fosse o fato de eu ir do hospital direto para a prisão. Minha situação não estava seguindo como eu imaginava.

Depois da visita, insisti em tomar banho sozinha, pois não queria que a enfermeira tocasse nas cicatrizes. Eles também perguntaram sobre elas mas eu ignorei com sucesso. Os números eram parecidos com tatuagens, 1..., 2..., 3..., em sequencia na vertical, numa profunda linha reta de horror. Eu não conseguia tocá-los, pois às vezes ouvia risadas em minha mente, fazendo-me recordar de como tinha ganho cada cicatriz. Uma a uma. Com diversos testes para que eles tivessem certeza de que eu estava me tornando o projeto perfeito. No inicio eu não aguentava, surtava e tentava me defender deles, mas com a segunda cicatriz isso ficou impossível. Ela me obrigava a seguir as regras. E essa obrigação foi implementada da pior forma.

O chuveiro se abriu e uma água quente começou a molhar meu corpo. Fechei os olhos com força para aproveitar aquele momento, por que eles sempre me machucavam com jatos de água fria, ou me afundavam na piscina com meu corpo amarrado em uma cadeira.

— SAIA DAÍ!

Eles gritavam para que eu me desamarrasse e eu precisava seguir as ordens. Sempre havia consequências quando as regras eram quebradas. Depois de algum tempo eu encontrava meios que facilitavam as "avaliações", mas sempre era difícil voltar para a superfície. E quando eu optava em permanecer debaixo d'água, eu ouvia suas vozes dizendo "Ainda não querida!" e como um bom animal de estimação eu retornava ao meu dono.

— SAIA DAÍ!

Abri os olhos nervosa. Eu estava ouvindo coisas ou as vozes eram reais? Me encolhi diante do chuveiro quente e esperei. Nada. Controlei minha respiração e terminei meu banho. Ao fechar a torneira senti um leve choque e me lembrei do terceiro número. Encarei meu braço e pensei em qual momento as cicatrizes serviram para o mal, e infelizmente senti que o policial estava certo... Eu não era tão indefesa quanto pensavam.

Me cobri com o roupão e retornei ao quarto onde a enfermeira me esperava. Ela entregou-me algumas roupas e ficou diante de mim esperando que eu me trocasse em sua frente. Eu não queria expor o meu corpo mas ela já aparentava ter visto o que poderia ver, então me despi do roupão e comecei a vestir um conjunto disponibilizado pelo hospital.

— Você deixou a água quente demais! — Ela disse tocando minhas costas.

De imediato agarrei seu pulso com força e apertei gradativamente. Os olhos dela se arregalarão e eu a soltei, ela por sua vez, amaciou a região e recuou contra mim.

— Me desculpe! Para mim, a temperatura estava bem agradável. — Falei e ela fez que sim com a cabeça. — Você sabe se eles descobriram algo sobre mim? — Ela fez que não com a cabeça. — Essa informação serve para meu próprio beneficio... Se você soubesse, me contaria, não é mesmo?

— Claro. — Ela disse incerta.

— Os policiais que me trouxeram, estão pelos corredores? — Perguntei desconfiada.

— Não os vi hoje.

— Eu preciso que faça um favor para mim...

— Eu tenho que ir, senhorita. Há muitos pacientes que precisam ser verificados... Se tomaram as medicações corretamente, fique aqui, tudo bem? — Ela se apressou e quando percebi já tinha saído do quarto.

Observei o meu redor e percebi o que eles deixaram de notar: não me algemaram dessa vez. Eu sabia que se fugisse estaria colocando mais suspeitas nas minhas costas, mas se eu permanecesse ali, talvez as coisas não fossem tão diferentes. Abri a porta devagar e observei as pessoas que estavam no corredor. Sem oficiais e sem nenhum homem ou mulher de terninho. Sorri internamente. Caminhei com tranquilidade para não demonstrar vestígios da minha atitude suspeita, segui meus instintos ao caminhar pelos corredores até chegar na recepção. Mais alguns metros e eu estaria longe daquele hospital, mas então pra onde eu iria? Qualquer lugar é melhor do que estar trancada em um lugar que não queira estar.

— Tem razão! Vamos lá... — Falei comigo mesma.

Um passo de cada vez. Continuei caminhando até atravessar pela recepção, passei pela porta de entrada e continuei caminhando para o estacionamento. Um guarda me estranhou pelas roupas mas me escondi entre os carros e o despistei. Fácil demais, pensei comigo mesma. Se isso fosse um teste, eu nem poderia imaginar o que estava à minha espera. Levantei devagar e olhei ao meu redor: Nada. Voltei a me agachar à meio de tantos carros e tentei pensar no passo seguinte. Eu precisava ser rápida, logo viriam me procurar, então decidi correr para longe dali e depois pensar em qual plano seguir.

O vento batia no meu rosto, minha respiração estava acelerada e minha mente analisava tudo ao meu redor. Eu não podia ser pega, não dessa vez. As pessoas me encaravam com olhares estranhos na rua e eu fui perdendo o foco nos detalhes. Parei num semáforo e senti uma sensação familiar naquela avenida, mas foi estupidez parar ali para descobrir que poderia ser. Eles já estavam à minha espera.

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