29 julho 2018
Por Karol Vicente

[Usurper] Capítulo I

Eu não sentia mais meus pés, não conseguia respirar e já havia desistido de procurar a luz. Não conseguia lembrar dos últimos momentos antes de me abandonarem na rua, sozinha e seminua, mas eu nunca iria esquecer das vozes que ouvi durante os últimos meses naquele lugar. Eu passei os piores momentos da minha vida trancafiada naquela casa de concreto e além dos anos perdidos, eu já não me lembrava de quem eu era antes das torturas, não me recordava de minha família ou de onde eu nasci, pois todas as memórias haviam sido apagadas. Essa era a consequência de um dos números.

Depois de um tempo, eu entendi o funcionamento das coisas, das torturas e das cicatrizes. Era assim que eu as chamava. Passei então a observar os homens que me cercavam, mesmo não vendo (ou não lembrado) dos seus rostos. Comecei a ser uma boa garota, fazia tudo o que Ele pedia para que talvez fosse um pouco mais piedoso comigo. E quando consegui o que eu queria, desperdicei minha única chance e a consequência disso foi esta: Eu aqui na rua em meio a possíveis chances de ser atropelada.

Eu sabia que era noite. Sentia o vento gelado bater nas minhas coxas despidas enquanto meus pés tentavam caminhar em linha reta. Eu não sabia se deveria caminhar para trás ou para os lados, pois eles tinham colocado um saco em minha cabeça e dessa forma minha localização estava impotente. Eu não enxergava nada e mal conseguia respirar já que também estava amordaçada. Minhas mãos tinham sido amarradas para trás e por isso eu não conseguiria fazer nada para mudar minha situação.

Depois de ter sido jogada do carro naquele estado, eu ouvi o barulho do motor se distanciando e segui o mesmo caminho. Torcia para que aquela estrada não tivesse mão dupla, mas ainda assim eu estava perdida e indefesa. Caminhei por muito tempo, meus pés começaram a arder e eu me controlava para não chorar, pois isso me roubaria o pouco ar que eu conseguia ter dentro daquele maldito saco. Pensei em sentar no meio da estrada, mas assim seria difícil dos motoristas me enxergarem e então eu seria menos do que este corpo ambulante. Talvez fosse melhor. Mas então começou a chover e eu senti que precisava continuar caminhando. Mais algum tempo se passou e eu temi por morrer de frio. Estava cansada, mas as torturas me fizeram criar certa resistência às dores, porém meu corpo estava necessitando de calor e eu não podia conter a perda de minha temperatura.

No meio desses pensamentos, eu pedi para o universo uma última chance e acho que fui correspondida pois ouvi algumas vozes. Alguém gritou e disse para eu parar aonde estava, mas minha mente começou a projetar cenas de homens maliciosos abusando de mim, e por isso eu continuei caminhando. Meu medo fez com que minha respiração ficasse ofegante, mas eu não tinha forças para andar mais rápido.

— Você ai! PARADA!

— Me deixa em paz. — Eu falei num sussurro audível somente para mim mesma.

— FIQUE PARADA E COLOQUE SUAS MÃOS AO ALTO PARA QUE EU POSSA VÊ-LAS! — A voz de um homem vinha atrás de mim.

Eu ouvi suas pegadas contra as poças que se formavam da chuva. Parei por um instante e torci para que não estivesse enganada. Era um policial? Eu tinha encontrado um policial?

—Coloque as mãos onde eu possa vê-las! — Ele ordenou.

— Eu não consigo. — Murmurei com a mordaça em minha boca.

— Fale mais alto!

Minha boca seca não deixava eu falar em um tom mais alto e a chuva não cooperava. Dei um passo à frente e me aproximei dele, mas ouvi o barulho do gatilho de sua arma para mim. Eu conhecia bem aquele som. 

Ele chegou mais perto de mim e rodeou onde eu estava, eu sentia que sua arma ainda estava direcionada à minha cabeça e apesar de tremer muito por conta do frio, eu tentava controlar meu corpo e permanecer imóvel como ele tinha pedido. Ouvi ele apertar um botão e falar "Sargento Johnson para base" "Na escuta, sargento" "...eu preciso que contatem o esquadrão anti-bomba...".

Anti-bomba? Por que anti-bomba? O que eles fizeram comigo? Meu ar começou a desaparecer e eu percebi que não ia aguentar esperar tanto tempo. Eu precisava que alguém me ajudasse naquela situação ou acabaria morrendo de frio ou sem ar. Meu psicológico estava iniciando um surto e quando vi, estava correndo no meio da estrada na direção oposta ao policial.

Ele veio por trás e me derrubou no chão. Nessa hora eu senti algo machucar minha barriga e só então percebi que algo estava amarrado ao meu corpo. O que quer que fosse fez um barulho feio ao tocar no chão e mal consegui me virar sem a ajuda daquele homem.

— O que está acontecendo aqui, Johnson? — Outra voz masculina surgiu.

— Ela estava tentando fugir!

"EU PRECISO DE AJUDA" gritei em minha mente. Estava ficando desesperada e nenhum dos dois rapazes me ajudavam, mesmo observando que eu estava impossibilitada de falar ou de fazer qualquer mal contra eles.

— Retira isso da cabeça dela, ela vai morrer sufocada...

— Não podemos, tem um fio conectado à bomba.

Meu coração parou por um momento. Não sabia se era mais um dos testes de rotina que eles faziam comigo ou se eu tinha morrido. Meu corpo começou a ficar estranho e eu não precisei mais lutar por ar, ele já não era mais necessário.

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