11 abril 2017

O CAFÉ MORNO DE CADA DIA


Sentada em uma mesa de canto, usando uma camiseta azul clara e um jeans desbotado, estava Lidia. O pedido era o mesmo de sempre, um café sem açúcar. Enquanto aguardava sua advogada chegar, ela lia os noticiários online em seu notebook, onde destacavam tragédias sem fim. Um longo suspiro foi solto no ar e para preencher o vazio, o pedido foi entregue. Lidia esquentou suas mãos na xícara branca de porcelana e observou a chuva que molhava a janela de vidro do outro lado da lanchonete. Minutos depois sua advogada chegou, seu terno cinza estava um pouco molhado e a mesma carregava uma pasta preta, que Lidia já sabia bem quais documentos estavam escondidos ali dentro.

Quando Felicia sentou-se à frente de Lidia, nenhuma palavra foi dita, ambas ouviram o barulho da chuva cair e dessa forma, deram início ao trabalho. Eram muitos documentos a serem assinados e mesmo que Lidia imaginasse que aquela decisão seria o fim de tudo, para Felicia a situação era completamente contrária.

― Você tem certeza do que está fazendo? – Felicia perguntou.

Lidia voltou a olhar a chuva e se perdeu em pensamentos por um instante, e antes de responder o questionamento da amiga, levou a xícara até a boca para beber um gole do café intacto.

― Vale a pena ficar requentando o café para manter-se acordada?

― Eu creio que não.

― Exatamente. Será que vale a pena manter-se firme na realidade, abastecida por duas doses diárias de café? Por que não me contenta mais os cafés mornos de cada dia, já não possuem cafeína o suficiente para manter-me de pé. Esta não é a vida que me cativa. Por isso decidi que esta será minha última xícara de café, não me importo mais se estarei ligada ou não nos 220 watts por que sou um ser humano, e não um robô que precisa de combustível para continuar ativa na sociedade.

― Mas você não precisa se abastecer se não desejar. Sua vida é você quem faz, e suas atitudes e escolhas que alteram o caminho a ser percorrido. Se você aceita o pensamento de que é um robô, automaticamente muitas portas serão fechadas para você. Maiores do que esta que você insiste em trancar com um cadeado. – Felicia disse pensativa. Era difícil separar os laços de amizade com o trabalho profissional. – As primeiras mudanças vêm do seu interior, e mesmo que o padrão da sociedade te limite e te pressione a ser e a pensar em algo que não aceita, prenda-se apenas ao seu desejo interior. Se desejar uma mudança de verdade, você pode tê-la. Enxergue quantas coisas lindas há nessa vida, você acha mesmo que são mais insignificantes do que as tragédias, o sofrimento e o medo da vida?

Lidia começou a chorar sem perceber, as lágrimas que escorriam em seu rosto eram silenciosas demais, mas ainda assim carregavam o peso daquele apetite insaciável de cessar a dor. Eram tantos problemas, tantas decepções, tanta pressão e arrependimento, que Lidia já não sabia mais como organizar e controlar seus sentidos. Para isso ser feito, uma bebida quente sempre era bem vinda, mas não naquele dia. Felicia observava a amiga e se recordava de todos os momentos em que passaram juntas, desde a faculdade até a primeira viagem à Austrália. E após anos juntas, ela descobrira a depressão que Lidia carregava em si, quando a mesma pediu para que ela digitasse seu testamento. Naquele dia chuvoso, ao sair de casa para ir ao encontro da amiga, Felicia sentiu um enorme remorso no peito, por que apesar de dar o que a amiga havia pedido, ela se sentia egoísta demais para entender o porquê de tal desistência pela vida. Esses pensamentos a abalaram e ela resolveu levantar-se para fazer seu pedido. Ao voltar para a mesa em que Lidia a esperava, ela ouviu Lidia dizer:

― Não se sinta mal por eu estar fazendo isso. "Não é a morte ou a dor que deve ser temida, mas o medo da dor ou da morte" escreveu Epiteto. E eu não estou com medo.

― Eu só lamento por ter de perder alguém tão maravilhoso como você. – Felicia disse ao tentar conter tristeza.

― Olhe a chuva! Eu ainda estarei presente nas gotículas que irão cair dessas grandes bolas de algodão que rodeiam o mundo. Esta não é uma perda total. – Lidia sorriu e pegou o último documento que deveria ser assinado, autorizando a doação de seus órgãos após o procedimento de Eutanásia ser feito. – Gostaria que conhecesse as pessoas que terão partes de mim, entregue meu último escrito como forma de presente. Quero que eles apreciem a vida por mim.

― Os escolhidos ficarão agradecidos eternamente e irão ama-la como eu amo.

― Você já ouviu aquela música que diz Sometimes love's not enough” da cantora Lana Del Rey? – Lidia perguntou e Felicia afirmou que sim com a cabeça. - Dessa vez seu amor foi o suficiente para concluir meu desejo, eu sinto o quanto me ama, uma vez que a dor que você sente em me perder não é maior do que a vontade que você tem em me ver feliz. Essa é a maior prova de amor que eu poderia receber.

As duas se entreolharam no silêncio daquela tarde cinzenta, e quando a caneta pousou na mesa, Felicia sabia que estava feito. Quando a garçonete veio lhe servir, Felicia percebeu que cometia o mesmo erro de Lidia, um café quente a encarava. Percebendo sua própria robotização, ela chamou a garçonete e pediu um suco de laranja. Lidia sorriu para ela e ele foi retribuído. As duas se encararam e continuaram observar a chuva cair e lavar todas as incertezas que elas possuíam há uma hora.

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